janeiro 26, 2010

A mulher no espelho



Anali, advogada, 30 e poucos anos (esses poucos são segredo de Estado, não revelados nem sob tortura). Profissional competente, sem filhos, vaidosa ao extremo. Gasta fortunas com cosméticos e tudo que envolva estética.
Sua rotina é pesada. Acorda às 5h e às 6h já está na academia correndo para fugir das celulites e dos quadris avantajados. Volta para casa e engole seus suplementos, já a caminho do banho para não se atrasar. Maquia-se no carro indo para o trabalho, sem tempo nem para respirar.
Enfim, chega ao escritório e aproveita o tempo no elevador para, finalmente, relaxar. Enquanto o computador liga, pega um café preto com gotas de adoçante, seu único combustível até a hora de almoçar.
E-mails não param, o celular toca a todo minuto, tem um projeto para entregar! Meu Deus, vai dar tempo de almoçar?
Ufa, 14h, projeto finalizado, uma saidinha rápida para se alimentar. Escolher o prato é prático, afinal, sua dieta permite-lhe apenas um grelhado com salada verde, sem azeite, só vinagre, para não engordar. Refeição finalizada, voa ao escritório, a reunião já vai começar.
Ai, que reunião inútil, ela pensa, e eu com tantas coisas para fazer.
Fim da reunião, mais um pouco de café para disfarçar a fome que bate. Dá um pouco de culpa, afinal, café escurece os dentes. Credo, melhor se cuidar. Magra com dentes feios, hum, nada bom! Bebe o café, mas vai escovar os dentes para amenizar o crime.
Durante a tarde, muita água: desintoxica, zero calorias, não causa nenhum mal. Perfeito!
Sai do escritório às 19h, considerando um cenário otimista. Fez tantas coisas, o dia foi tão intenso, que até se esqueceu que era segunda-feira, dia da drenagem. Drenagem na segunda é providencial. Alivia o peso na consciência dos excessos do fim-de-semana. Excessos que, em analilês, significavam um mini brigadeiro a que ela não resistiu na festinha de seu sobrinho.
Chega em casa e toma um banho. Desta vez com calma, relaxamento merecido.
Para jantar, ainda pensando no brigadeiro que se depositou no seu abdômen, decide tomar apenas uma sopinha. A parte boa é que sopa não suja nada, apenas um prato e uma colher (tudo tem seu lado bom, viu?). Então, lava a louça com luvas para não ressecar as mãos e não estragar seu esmalte. Só poderá ir à manicure no fim de semana.
Fim do dia, sensação de missão cumprida: academia, dieta, drenagem. Epa! Faltava ainda a rotina de cremes: hidratante corporal, anti-rugas para a área dos olhos, outro para o restante do rosto, creme anti-envelhecimento para mãos.
Olhou a hora, eram 23:30h, ainda precisava ler seus e-mails pessoais. Lembrou que não ligou para a sua amiga de novo, esqueceu de marcar o médico, geladeira vazia, amanhã é dia de supermercado. Anota tudo, não pode esquecer.
Ai que fome! Melhor dormir para não ceder à barriga roncando.
Dormindo sonha com Ilana, a mulher real, cheia de desejos e vontades que não podem ser saciadas por Anali, a mulher que encontra todos os dias no espelho.
Anali é exigente ao extremo: quer pele sem rugas, glúteos sem celulite, barriga reta, zero de culotes e uma eficiência profissional reconhecida por todos ao redor.
A advogada acorda de seu sonho, Ilana está no seu RG, mas adotou Anali como estilo de vida.